A síndrome do impacto — ou impacto subacromial — acontece quando os tendões do manguito rotador e a bursa, uma pequena bolsa que reduz o atrito, são comprimidos no espaço estreito entre a cabeça do úmero e o acrômio, o osso que forma o "teto" do ombro. Essa compressão repetida inflama a bursa (bursite) e sobrecarrega os tendões (tendinopatia), causando dor ao elevar o braço. É uma das queixas mais frequentes no consultório de ombro e, na maioria das vezes, melhora sem cirurgia.
Bursite, tendinite e impacto: qual a relação?
Os três nomes descrevem partes do mesmo processo. O atrito repetido sob o acrômio irrita primeiro a bursa — a bursite — e, com o tempo, os próprios tendões do manguito rotador passam a sofrer, caracterizando a tendinopatia. Por isso é comum receber "bursite" e "tendinite" como diagnósticos na mesma ressonância: em geral, são estágios de um único problema mecânico, e o tratamento segue os mesmos princípios.
Sintomas mais comuns
- Dor na face lateral ou anterior do ombro ao elevar o braço;
- Arco doloroso: a dor aparece no meio do caminho da elevação e alivia no final do movimento;
- Dor em atividades acima da cabeça — estender roupa, pintar, sacar no tênis, alcançar prateleiras;
- Dor noturna leve, principalmente ao deitar sobre o lado afetado;
- Sensação de fraqueza ou cansaço do braço em tarefas repetitivas.
Por que o impacto acontece?
Raramente há uma causa única. O formato do acrômio — mais curvo ou em gancho em algumas pessoas — reduz o espaço disponível para os tendões. A sobrecarga repetitiva, no trabalho ou no esporte com o braço acima da cabeça, aumenta o atrito. E a fraqueza do manguito rotador permite que a cabeça do úmero suba e comprima ainda mais a bursa. Um fator muitas vezes esquecido é a discinesia de escápula: quando a escápula não acompanha o movimento do braço no ritmo adequado, o "teto" do ombro deixa de se afastar dos tendões durante a elevação — e corrigir esse desequilíbrio é parte central do tratamento.
Na síndrome do impacto, o alvo do tratamento não é apenas a inflamação, mas a mecânica do ombro: reequilibrar o manguito e a escápula é o que evita que a dor volte.
Diagnóstico
O diagnóstico é essencialmente clínico: a história típica e os testes de impacto realizados no consultório costumam apontar o problema. A radiografia mostra o formato do acrômio e afasta outras causas de dor, como a tendinite calcária. O ultrassom e a ressonância magnética avaliam a bursa e a integridade dos tendões — informação importante, pois uma rotura do manguito muda a conduta.
Tratamento
Tratamento conservador: a regra
A grande maioria dos pacientes melhora sem cirurgia. O programa combina medicação para controlar a dor na fase aguda, ajuste temporário das atividades que provocam os sintomas e, principalmente, fisioterapia com reequilíbrio muscular: fortalecimento do manguito rotador, correção da postura e do ritmo da escápula e alongamento da cápsula posterior. Em casos selecionados, quando a dor impede a reabilitação de avançar, a infiltração subacromial com corticoide reduz a inflamação da bursa e abre caminho para os exercícios. A melhora costuma ser gradual, ao longo de semanas a poucos meses.
Cirurgia: apenas nos casos refratários
Quando a dor persiste apesar de um programa conservador bem conduzido, a descompressão subacromial por artroscopia pode ser indicada: por pequenos cortes, remove-se a bursa inflamada e regulariza-se a superfície inferior do acrômio, ampliando o espaço para os tendões. É um procedimento minimamente invasivo, com recuperação em geral mais rápida do que a dos reparos tendinosos — mas reservado a uma minoria de pacientes, sempre depois de esgotar o tratamento conservador.
Recuperação e prevenção
Com ou sem cirurgia, a manutenção do resultado depende de manter o ombro forte e a escápula bem posicionada. Exercícios regulares de fortalecimento, pausas nas atividades repetitivas acima da cabeça e a progressão orientada no esporte reduzem muito a chance de a dor retornar. Quando os sintomas reaparecem, a reavaliação precoce evita que uma simples bursite evolua para lesões maiores dos tendões.