O ombro é a articulação mais móvel do corpo — e, justamente por essa liberdade de movimento, é também a que mais luxa. Na luxação, a cabeça do úmero sai por completo do seu encaixe na glenoide, quase sempre para a frente, após uma queda, um trauma no esporte ou um movimento forçado com o braço aberto. Quando o ombro sai do lugar repetidamente, ou o paciente sente que ele "vai sair", falamos em instabilidade do ombro.
O que acontece na primeira luxação
A primeira luxação traumática é um episódio marcante: dor intensa, deformidade visível e incapacidade de mover o braço. O tratamento imediato é a redução — a recolocação da articulação no lugar, feita por um médico, de preferência em ambiente hospitalar e após avaliação com radiografia. Em seguida, o ombro é protegido com tipoia por um período curto e inicia-se a reabilitação para recuperar o movimento e a força.
O problema é que a luxação raramente sai "de graça". Ao deslocar, a cabeça do úmero costuma arrancar o labrum — a borda de fibrocartilagem que aprofunda o encaixe — da parte anterior da glenoide. Essa é a lesão de Bankart, o principal motivo pelo qual o ombro pode voltar a luxar. É comum também uma impressão na parte de trás da cabeça do úmero, a lesão de Hill-Sachs, causada pelo impacto contra a borda da glenoide. O labrum pode ainda ser lesado em outras regiões, como na lesão SLAP, que acomete a sua porção superior.
Quem tem mais risco de novas luxações?
O risco de recidiva depende, sobretudo, da idade no primeiro episódio e do nível de atividade. Em jovens e atletas de esportes de contato — futebol, lutas, basquete, handebol — a chance de o ombro luxar novamente é muito maior do que em pacientes de mais idade. A cada novo episódio, as lesões do labrum e do osso tendem a se agravar, o que torna o tratamento mais complexo.
Depois da primeira luxação, especialmente em pacientes jovens e esportistas, vale a pena conversar com um especialista sobre o risco de recidiva — esperar o ombro sair várias vezes pode significar perder osso e opções de tratamento.
Na instabilidade recidivante, as luxações passam a ocorrer com traumas cada vez menores — às vezes ao vestir uma camisa ou durante o sono. Há também as subluxações: o ombro sai parcialmente do lugar e volta sozinho, deixando dor, insegurança e a sensação de "falseio" em determinados movimentos, como o arremesso.
Diagnóstico
A avaliação começa pela história dos episódios e pelo exame físico, com testes específicos de apreensão e de frouxidão ligamentar. A radiografia documenta a luxação e a redução, além de identificar fraturas associadas — quando o trauma é maior, a luxação pode acompanhar fraturas do ombro. A ressonância magnética, muitas vezes com contraste intra-articular (artro-RM), mostra a lesão de Bankart e as demais lesões do labrum e da cápsula. Quando há suspeita de perda óssea na glenoide ou uma lesão de Hill-Sachs profunda, a tomografia computadorizada quantifica o defeito — informação decisiva para a escolha da técnica cirúrgica.
Tratamento
Tratamento conservador
Baseia-se na fisioterapia com fortalecimento do manguito rotador e dos estabilizadores da escápula, além do treino de propriocepção — a percepção de posição do ombro. É uma boa opção em pacientes de mais idade, com baixa demanda esportiva, e em quadros de subluxação sem lesões estruturais importantes. O programa exige constância: a musculatura passa a compensar parte da estabilidade que o labrum lesado deixou de oferecer.
Tratamento cirúrgico
É considerado na instabilidade recidivante e, em perfis de alto risco, já após a primeira luxação. O reparo de Bankart por artroscopia reinsere o labrum e retensiona a cápsula com âncoras, por pequenos cortes — é a técnica mais utilizada quando o estoque ósseo está preservado. Quando há perda óssea significativa da glenoide, lesão de Hill-Sachs extensa ou falha de uma cirurgia anterior, a escolha recai sobre a técnica de Latarjet: a transferência do processo coracoide com seus tendões para a borda anterior da glenoide, que repõe osso e cria um efeito adicional de contenção.
Recuperação e retorno ao esporte
Após a cirurgia, usa-se tipoia por algumas semanas, seguida de fisioterapia em fases: primeiro a recuperação do movimento, depois o fortalecimento e, por fim, o treino específico do esporte. O retorno ao esporte acontece, em geral, entre 4 e 6 meses, conforme a técnica, a modalidade e a evolução individual. Nos esportes de contato, a liberação é mais criteriosa, exigindo força simétrica e confiança plena no ombro. Com a indicação correta, a maioria dos pacientes volta às suas atividades com o ombro estável.