A tendinite calcária é o acúmulo de cristais de cálcio dentro de um dos tendões do manguito rotador — na grande maioria das vezes, o supraespinal. O depósito se forma sem relação com a alimentação e afeta sobretudo mulheres entre 30 e 60 anos. Ele pode permanecer silencioso por meses ou anos e, de repente, provocar uma das dores mais intensas que o ombro pode apresentar. A boa notícia: é uma condição benigna, com diagnóstico simples e tratamento eficaz — quase sempre sem cirurgia.
Sintomas mais comuns
- Dor na face lateral do ombro, que pode irradiar para o braço;
- Dor ao elevar o braço, parecida com a da síndrome do impacto;
- Dor noturna, que atrapalha o sono ao deitar sobre o lado afetado;
- Crises súbitas de dor muito forte, com o ombro quase "travado";
- Limitação temporária dos movimentos durante as crises.
As fases da calcificação
A tendinite calcária evolui em ciclos, e entender as fases ajuda a entender a dor. Na fase de formação, os cristais de cálcio se depositam lentamente no tendão — em geral com pouco ou nenhum sintoma. Na fase de repouso, o depósito fica estável e pode causar dor mecânica ao elevar o braço, por ocupar espaço sob o acrômio. Já na fase de reabsorção, o próprio organismo começa a dissolver o cálcio: esse processo desencadeia uma inflamação intensa dentro do tendão, responsável por crises de dor muito forte — frequentemente descritas como das dores mais intensas do ombro, capazes de levar o paciente ao pronto-socorro.
Uma dor súbita e insuportável no ombro, sem nenhum trauma, pode ser a fase de reabsorção de uma calcificação. Por mais assustadora que seja, essa fase costuma indicar que o depósito está sendo eliminado — e a dor tem tratamento.
Por que a calcificação acontece?
A causa exata ainda não está totalmente esclarecida. Sabe-se que não se trata de excesso de cálcio na dieta ou no sangue, e sim de uma transformação local das células do tendão, que passam a produzir os cristais. Fatores como alterações hormonais e metabólicas — diabetes e disfunções da tireoide, por exemplo — parecem estar associados em parte dos casos.
Diagnóstico
O diagnóstico é, em geral, simples. A radiografia mostra o depósito de cálcio, sua localização e seu tamanho; o ultrassom complementa a avaliação, indicando a consistência da calcificação e guiando procedimentos. A ressonância magnética fica reservada para dúvidas diagnósticas ou para avaliar a integridade dos tendões do manguito rotador.
Tratamento
Tratamento conservador
A maioria dos casos se resolve sem cirurgia. Durante a crise aguda, a prioridade é o alívio: analgesia potente, anti-inflamatórios e, quando necessário, infiltração para controlar a dor. Passada a fase aguda, a fisioterapia recupera o movimento e fortalece o ombro, prevenindo a rigidez e a dor residual.
Procedimentos guiados por imagem
Quando o depósito persiste e continua doendo, a aspiração do cálcio (barbotagem) é uma excelente opção: com anestesia local e guiado por ultrassom, o depósito é lavado e aspirado com agulha, sem cortes. Outra alternativa bem estabelecida é a terapia por ondas de choque, que fragmenta a calcificação e estimula a sua reabsorção ao longo das sessões.
Tratamento cirúrgico
Reservado aos casos refratários, que não melhoram após o tratamento conservador e os procedimentos guiados. A artroscopia do ombro permite remover o depósito de cálcio por pequenos cortes, com visão direta da articulação, e avaliar e tratar o tendão no mesmo procedimento, quando necessário.
Recuperação
O prognóstico da tendinite calcária é, em geral, muito bom: a maioria dos pacientes fica livre da dor com o tratamento adequado, e o depósito tende a desaparecer com o tempo. Após a barbotagem, o retorno às atividades leves costuma ser rápido; após a artroscopia, a fisioterapia conduz a recuperação em fases — primeiro o movimento, depois a força. O acompanhamento com especialista permite que cada fase da calcificação receba o tratamento certo, no momento certo.