O laudo de ressonância ou de ultrassom do ombro costuma chegar antes da consulta, cheio de termos como "tendinopatia do supraespinhal", "rotura transfixante" ou "bursite subacromial-subdeltoidea". Este guia traduz o que cada um quer dizer. Um aviso antes de começar: muitos desses achados aparecem em pessoas que não sentem dor nenhuma. O laudo descreve a imagem; quem decide o tratamento é a combinação dele com a sua dor, a sua força e o exame físico.
Os quatro tendões que aparecem no laudo
O manguito rotador é formado por quatro tendões que envolvem a cabeça do úmero. O laudo descreve cada um pelo nome:
- Supraespinhal: fica no alto do ombro e ajuda a levantar o braço. É, de longe, o mais acometido, e a maior parte dos laudos fala dele;
- Infraespinhal e redondo menor: ficam atrás e giram o braço para fora;
- Subescapular: fica na frente e gira o braço para dentro. Suas lesões costumam vir junto com alterações do tendão do bíceps.
Do mais leve ao mais grave: o que cada termo significa
Tendinopatia, tendinose ou tendinite
O tendão está espessado ou com sinal alterado na imagem, mas não está rompido. É desgaste ou sobrecarga, muito comum depois dos 40 anos. Na maioria das vezes, é tratada sem cirurgia. Veja tendinite no ombro.
Rotura (ou ruptura) parcial
Parte da espessura do tendão rompeu, mas ele ainda está inteiro de um lado ao outro. O laudo pode dizer se a lesão está na face bursal (de cima), na face articular (de baixo) ou dentro do tendão (intrassubstancial). Muitas roturas parciais melhoram com fisioterapia bem orientada.
Rotura transfixante, completa ou de espessura total
A rotura atravessa o tendão de cima a baixo. "Transfixante" não quer dizer que o tendão inteiro se soltou: pode ser um furo pequeno. O laudo costuma medir o tamanho em milímetros ou centímetros. Roturas completas não cicatrizam sozinhas, mas isso não significa cirurgia para todos: a decisão depende da dor, da força, da idade, da atividade e de como a lesão começou.
Retração do tendão
Na rotura completa, a ponta do tendão pode recuar em direção ao músculo. Quanto maior a retração, mais difícil e mais antigo tende a ser o caso.
Atrofia e infiltração gordurosa do músculo
Quando o tendão está rompido há muito tempo, o músculo diminui e é substituído por gordura. É um dos achados mais importantes do laudo: com infiltração gordurosa avançada, o reparo do tendão tende a não funcionar, e entram em cena alternativas como as transferências de tendão e a prótese reversa. É também o motivo pelo qual a rotura traumática em pessoa ativa não deve esperar muito.
Outros termos frequentes
- Bursite subacromial-subdeltoidea: líquido ou espessamento na bursa, a bolsa que fica entre o manguito e o acrômio. Costuma acompanhar a síndrome do impacto;
- Acrômio tipo II ou III, ou esporão (osteófito) subacromial: descreve o formato do osso acima do manguito. É achado comum e, sozinho, não indica cirurgia;
- Artrose acromioclavicular: desgaste da articulação entre a clavícula e o acrômio. Aparece na maioria dos laudos depois dos 40 anos e quase sempre não é a causa da dor;
- Calcificação ou tendinopatia calcária: depósito de cálcio dentro do tendão, que pode causar crises de dor intensa. Veja tendinite calcária;
- Tendinopatia, subluxação ou rotura da cabeça longa do bíceps: alterações do tendão do bíceps que passa pela frente do ombro;
- Lesão do labrum, lesão de Bankart ou de Hill-Sachs: sinais de que o ombro já saiu do lugar. Veja instabilidade do ombro e lesão SLAP;
- Derrame articular: líquido dentro da articulação, sinal de inflamação que acompanha vários quadros;
- Espessamento da cápsula ou do intervalo rotador: pode aparecer na capsulite adesiva (ombro congelado).
Ultrassom ou ressonância: qual exame mostra o quê
O ultrassom avalia bem os tendões do manguito, a bursa e as calcificações, mas depende muito de quem faz o exame. A ressonância magnética mostra, além dos tendões, a qualidade do músculo, o labrum, a cartilagem e o osso, e por isso é o exame usado para planejar uma cirurgia. A radiografia não mostra tendão, mas continua útil para ver artrose, calcificação e o formato do acrômio.
O que realmente pesa na decisão
Dois laudos iguais podem ter condutas diferentes. Na consulta, o que define o caminho é:
- Se a dor e a perda de força batem com o que a imagem mostra;
- Se a lesão começou com uma queda ou esforço (traumática) ou veio aos poucos (degenerativa);
- O tamanho da rotura, a retração e a qualidade do músculo;
- A idade, o trabalho e o esporte;
- Como o ombro respondeu ao tratamento já feito.
Leve o laudo e, se possível, as imagens (CD ou link) para a consulta. O exame físico, junto com as imagens, mostra se a lesão descrita é mesmo a causa da sua dor.